27/09/2016

Resenha: A Cor da Coragem



Título:
A Cor da Coragem
Autor: Julian Kulski
Editora: Valentina
Páginas: 416
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Sinopse: “Afinal, o que fica para um homem, além da sua honra… e da coragem de viver por ela?” Julian Kulski. Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invade a Polônia. É o início da Segunda Guerra Mundial. Em poucos dias, Varsóvia se rende aos alemães, soldados poloneses depõem suas armas, a cidade já é um amontoado de escombros. Julian Kulski é um menino polonês de apenas 10 anos de idade. Filho do vice-prefeito de Varsóvia, escoteiro ousado e entusiástico, ele tem a firme convicção de que deverá lutar contra o Invasor. “A cor da coragem” é o diário de Julian Kulski, a história de seu amadurecimento durante os cinco anos da brutal ocupação alemã. Diferentemente do diário de Anne Frank, narrado a partir da sua clausura no esconderijo de um prédio em Amsterdã, o de Julian Kulski se passa nas ruas de Varsóvia, no front, no combate cara a cara com o inimigo, no infame Gueto onde se encontram seres humanos famintos, desesperados e doentes à mercê de todo tipo de tortura, do enforcamento, do fuzilamento, da câmara de gás... “Este diário, escrito com o coração e pela mão de um adolescente, nos proporciona uma visão única e comovente da Segunda Guerra Mundial”. Lech Walesa, Prêmio Nobel da Paz

"A Cor da Coragem", recebido como cortesia da Editora Valentina, é um daqueles livros que todo amante da história do século XX deveria ler, da mesma forma que "O Diário de Anne Frank", pois conta uma versão honesta - dentro da parcialidade de cada pessoa e ainda que a honestidade seja limitada pelas edições - de pessoas que vivenciaram o conflito. Não bastasse o relato não fictício e de leitura mais acessível que livros didáticos, o livro apresenta uma edição fantástica sobre a qual falarei ao final -  e é preciso falar sobre ela, porque é um dos grandes pontos positivos desta obra.

O livro toma como base o diário de Julian Kulski, um menino polonês, que, aos 10 anos, viu seu país ser invadido por tropas alemãs e cresceu em meio ao caos do nazismo. Filho do vice-prefeito de Varsóvia e de uma mulher cuja ascendência remontava a um antigo rei da Polônia, Julian tinha uma vida razoável com sua família. Até que em 1939, tudo começou a ruir.

Era difícil para a criança que Julian era acreditar que o inimigo venceria e permaneceria no poder durante parte da sua juventude. A parte inicial do livro é, então, relatada de forma a demonstrar a ingenuidade da criança que ainda não enxerga a gravidade dos acontecimentos e que espera que o conflito será passageiro. Conforme ele cresce - cada capítulo narra um ano da vida de Julian dos 10 aos 16 anos - vemos gradativamente como a situação foi se agravando e como Julian foi tomando percepção do mundo em que vivia. No início, Julian tem 10 anos e acredita fortemente que os poloneses conseguirão vencer as tropas de Hitler. Aos poucos eles vê seus amigos sendo conduzidos aos guetos, seus amigos e familiares morrendo. A cada Natal, mais esforço para que haja comida na ceia. A cada Natal, a tristeza avança um pouco mais na alma de Julian, em proporção inversa ao que se coloca na mesa.

É interessante observar como a personalidade de Julian é moldada. Mesmo jovem, havia nele o instinto de sobrevivência e independência que se recusava a aceitar o domínio alemão. Filho de um político que se negou a fugir, tinha conhecimento de história e exemplos que o incentivavam a lutar. Assim, desde cedo participou de pequenas contravenções que, mesmo que não fossem responsáveis por grandes revoluções, denunciavam a trajetória que iria seguir até juntar-se à Resistência Polonesa e participar de conflitos armados.

Todavia, não somente as manobras da vida polonesa são interessantes de serem observadas ou ganham destaque na história de Julian Kulski. Embora não fosse judeu, Julian tinha amigos judeus e presenciou a gradativa perseguição, do trabalho forçado à segregação na cidade e ao extermínio. A descrição dos guetos demonstra o quão miseráveis eram as condições desse povo mesmo longe dos campos de concentração - aos quais também foram levados conhecidos e parentes políticos da família da Julian. Ainda, seu diário mostra como mesmo as tropas que prometiam libertação apresentavam interesses contrários ao da própria Polônia, que figurava como um brinquedo nas mãos de outras grandes potências além da Alemanha. De um lado, havia a Alemanha nazista; do outro, a Rússia comunista. No meio, um povo separado, torturado, diminuído, que buscava em sua história a ideia de libertação.

"A guerra é um horror inconcebível, mas também está cheia de feitos heroicos. Tentei apagar os pesadelos e as más lembranças, inspirando-me nos grandes sacrifícios que presenciei, atos de amor raramente encontrados em tempos de paz. Com o tempo, as minhas experiências da época da guerra fortaleceram a minha determinação de apreciar a beleza e a importância da vida, e decidi levar uma vida e uma carreira criativas, e não destrutivas. [...]"
"A luta pela liberdade não termina com a vitória ou a derrota em batalhas individuais, pois é eterna. Não leva muito tempo para transformar pessoas que amam a liberdade em escravos, numa ditadura totalitária. Eu vi com horror meus compatriotas da Polônia serem transformados de seres livres em escravos - primeiro, pelos alemães, e, cinco anos depois, durante 45 anos, pelos russos O que me convence de que nunca haverá esforço, nem resistência, nem lágrimas o bastante para defender a liberdade."

Sobre a edição, ela é memorável. Como mencionado, o livro é dividido em 6 capítulos (dos 10 aos 16 anos de Julian), além de um prefácio, um epílogo, um posfácio, apêndice, biografia, etc. Tanto o prefácio, quanto o posfácio (ambos escritos por autores diversos) e o epílogo, ainda que curtos, são espetaculares. Marcam o leior e transmitem a ideia central da história: uma luta por liberdade. Não obstante, nas páginas do livro, há diversos registros fotográficos do período, com fotos não apenas de Julian e seus conhecidos, como dos lugares por ele frequentados e da Polônia da época - por vezes um retrato de destruição. Porém, a surpresa mais encantadora estava ao fim dos capítulos. Entre cada capítulo, havia links e códigos QR que remetiam a vídeos sobre o período, muitas vezes com discursos mencionados, o que deixa o leitor ainda mais absorvido pela história.

Por fim, é um livro para quem realmente gosta deste período histórico. Outros fatores da vida de Julian são abordados, uma vez que se trata de um diário, mas o foco é a situação política, história e social da Polônia, que tornou-se o centro da vida de todos os que ali viviam. Dito isto, é uma história fantástica, de fácil e rápida leitura, narrada em uma ótima edição.

"Em seguida, leu um trecho do escritor polonês contemporâneo, Adam Prochnik: 'A medida da coragem depende do grau em que tenha sido um ato de vontade consciente. A história deve distinguir os atos acidentais de bravura dos que expressam as necessidades íntimas do homem.'"

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